segunda-feira, 18 de maio de 2009
Sou irrecuperavelmente romântica, tinha que vomitar essa bomba, antes que a mesma explodisse dentro de mim. Eu acreditava que não tinha coração, e quando os espinhos doíam, eu acreditava que eram simplesmente reflexões motoras da minha falta de juízo. Aqui está a minha revogação: eu tenho coração. E de uma maneira esquisita, ele não é de carne, acho que é de papel machê ou de vidro vagabundo, eu sinto, eu choro, eu me surpreendo admirando um casal no transporte coletivo, e por incrível que pareça, a culpa dele existir é minha. Anteriormente, no período de estiagem sentimental, brinquei, dancei, cultuei o agir livremente, sem pensar, fazer duas vezes antes de raciocinar, e essas atitudes só me renderam a dor que é criar um coração, é um processo longo, sinuoso, turbulento, e agora que o tenho não sei o que diabos fazer com esse órgão maldito. Não, não quero entregá-lo como um Big Mac pra qualquer ser insignificante que mal me conheça, não quero me aventurar. Então pra que serve essa porra? Pra variar, cá estou eu, querendo entender o por quê de sempre arranjar sarna pra me coçar.
quarta-feira, 11 de março de 2009
À minha birra querida.
Não sou o tipo que aprende, sou osso duro de roer, imutável e inexorável, gosto de velharias e eternidade, porém devo admitir: o tempo realmente cura tudo. Nunca fui paciente, mas, hoje admito de cabeça erguida que não significas nada mais que uma lembrança. E me glorifico ao jantar no nosso restaurante que não senti enjôo ao lembrar de nós dois ali sentados. Esperavas que eu fosse passar a vida na deprimida resignação da falta da tua presença. Aprendi a conviver com ela, e até a desprezá-la. Quer saber? Tua característica muito peculiar de caminhar pelos corações só te torna mais ridículo. Entretanto, isso não vem ao caso, pois parei de ter opiniões sobre você. Agora, me orgulho de poder dizer: não sinto, não opino, não percebo não me inclino a nada relacionado a você nem por você, e acreditem: o tempo curou, cura e vai curar muitas outras feridas. Eu andei, do jeito que costumo fazer, mesmo ferida, sangrando, eu ando, não deixo minhas pernas cansadas me ditarem o que fazer, e hoje, percebi o quão a minha determinação é válida. Obrigada, birra minha. Obrigada mesmo.
sábado, 10 de janeiro de 2009
Ele passou a mão na minha cintura. Eu olhei pra cima e admirei o cabelo. Ele sorriu e me abraçou forte me pondo nas pontas dos pés. Eu senti o perfume e sorri. E ele saiu.
- Volto já, só falar com um amigo.
Não respondi, só dei um sinal com a cabeça. Não significo nada para ele, então pra quê permitir algo banal fingindo que significo? Calo-me, e continuei a dançar, deixando evaporar dos meus poros todos os problemas das noites passadas. Ano novo, requebrado novo. E no meio daquela multidão suada e cheia de energia, a mão dele passou pela minha me puxando com delicadeza. Peguei a mão da minha amiga e a puxei também. Uns empurrões depois, estavamos em uma parte mais tranquila, do lado da sinuca.
- Tá tudo bem contigo, garota?
Garota. Unfs.
- Tá ok. E contigo?
Por que a pergunta de está tudo bem ficou banalizada ao ponto da resposta imediata.
- Tá sim, saudades. Só te vejo de vez em quando. Cê viu o comentário que deixei na tua foto?
- Não, não vi.
Menti. Não sei por que. Eu vi e passei minutos olhando.
- Ah, vamos marcar de sair?
- Vamos, vamos.
Toda vez é a mesma história de marcar, marcar, marcar. Vá marcar a sua mãe.
- Que você tem? Agitado.
- Ah, cherei uma carreira ali atras. Faz tempo que não faço isso.
Mão na minha cintura enquanto eu apoio minha cabeça no seu ombro. Afastei-me um pouco, olhei o seu rosto, segurei com as duas mãos.
- Você não devia fazer isso. Eu não gosto, eu me preocupo
- Silêncio.
- Eu sei que não significo nada pra você, mas, é por ti mesmo.
- Silêncio.
- Ah... Isso pode te fazer mal.
- Como você sabe?
- Er... deixa pra lá, então, só toma cuidado.
- Não, não é isso.
- Quê é ent...?
- Como você sabe que não significa nada?
Inferno.
- Volto já, só falar com um amigo.
Não respondi, só dei um sinal com a cabeça. Não significo nada para ele, então pra quê permitir algo banal fingindo que significo? Calo-me, e continuei a dançar, deixando evaporar dos meus poros todos os problemas das noites passadas. Ano novo, requebrado novo. E no meio daquela multidão suada e cheia de energia, a mão dele passou pela minha me puxando com delicadeza. Peguei a mão da minha amiga e a puxei também. Uns empurrões depois, estavamos em uma parte mais tranquila, do lado da sinuca.
- Tá tudo bem contigo, garota?
Garota. Unfs.
- Tá ok. E contigo?
Por que a pergunta de está tudo bem ficou banalizada ao ponto da resposta imediata.
- Tá sim, saudades. Só te vejo de vez em quando. Cê viu o comentário que deixei na tua foto?
- Não, não vi.
Menti. Não sei por que. Eu vi e passei minutos olhando.
- Ah, vamos marcar de sair?
- Vamos, vamos.
Toda vez é a mesma história de marcar, marcar, marcar. Vá marcar a sua mãe.
- Que você tem? Agitado.
- Ah, cherei uma carreira ali atras. Faz tempo que não faço isso.
Mão na minha cintura enquanto eu apoio minha cabeça no seu ombro. Afastei-me um pouco, olhei o seu rosto, segurei com as duas mãos.
- Você não devia fazer isso. Eu não gosto, eu me preocupo
- Silêncio.
- Eu sei que não significo nada pra você, mas, é por ti mesmo.
- Silêncio.
- Ah... Isso pode te fazer mal.
- Como você sabe?
- Er... deixa pra lá, então, só toma cuidado.
- Não, não é isso.
- Quê é ent...?
- Como você sabe que não significa nada?
Inferno.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
palhaçada.
Estou acostumada com o belo espetáculo em cartaz. ‘Venham senhoras e senhores! A aberração está a sorrir!’ O espetáculo de sempre, o de toda noite, dia, hora, segundo. O de sempre ser a coadjuvante de minha vida, como um personagem deslocado de um contexto maior, apertada entre os grandes e ilustres homens e mulheres, pequena no seu minúsculo mundinho, e dentro deste minúsculo mundo, eu sou a secundária. Coadjuvante nos espetáculos do meu teatro. Trata-se de uma comédia nojenta e a palhaça sou eu, palhaça sem graça própria, pois a sua existência é uma piada visto que é bastante adaptada a sua necessidade de incomodar, incomodar tudo e todos ao redor com a sua insignificância patológica. A palhaça, e não a colombina, não as confunda, e não confunda a imensidão com a insignificância, não confunda o riso com atenção, não confunda mãos com carinho, não confunda, por favor. O pierrot nunca virou o rosto em minha direção perdida entre os babados da minha roupa larga, colorida e chamativa, minha roupa que esconde todos os movimentos rápidos e imprecisos do meu órgão cardiológico ao lado do pierrot apaixonado pela colombina, ao lado , mas invisível. O entretenimento é bom, tire proveito das horas de risadas, não observe minhas olhadas maquiladas de canto para o protagonista, mantenha suas atenções na beleza da moçinha e não esqueça de rir da palhaça. Não consigo ficar todos os segundos que sou obrigada a ficar, fingindo desta forma desarcebada, então
corro, procuro um tom de compreensão nos olhos desnudados em minha direção em cima do palco, e antes de entrar, sento-me no meu camarim, alias, no da moçinha pois não possuo um no meu teatro, sento e tento me ajeitar, copiando a estrela sentada logo ali, que brilha só por ser. Subo no palco frio, não consigo ser tão ágil ou carismática, e o publico não é convalescente. Eu olho para cima e as luzes me cegam, uma clautofobia de mim mesma pulsa entre as veias, e tudo passa rápido pelos meus olhos, todos riem do meu sorriso, afinal arvore no cenário é empecilho, e eu sou bem menos necessária nessa trama. Diversão para os rostos exasperados na platéia e a minha perdição em tentar obter alguma importância de alguma forma de alguém. Mas, tantos ‘alguns’ tornam a busca infindável e desnecessária, estou cansada e não importa o quanto queira esmorecer eu continuo de pé com um sorriso desenhado em meu rosto rasgado de orelha a orelha com a boca fechada. O som dos risos ecoam. Eu já deveria saber.
corro, procuro um tom de compreensão nos olhos desnudados em minha direção em cima do palco, e antes de entrar, sento-me no meu camarim, alias, no da moçinha pois não possuo um no meu teatro, sento e tento me ajeitar, copiando a estrela sentada logo ali, que brilha só por ser. Subo no palco frio, não consigo ser tão ágil ou carismática, e o publico não é convalescente. Eu olho para cima e as luzes me cegam, uma clautofobia de mim mesma pulsa entre as veias, e tudo passa rápido pelos meus olhos, todos riem do meu sorriso, afinal arvore no cenário é empecilho, e eu sou bem menos necessária nessa trama. Diversão para os rostos exasperados na platéia e a minha perdição em tentar obter alguma importância de alguma forma de alguém. Mas, tantos ‘alguns’ tornam a busca infindável e desnecessária, estou cansada e não importa o quanto queira esmorecer eu continuo de pé com um sorriso desenhado em meu rosto rasgado de orelha a orelha com a boca fechada. O som dos risos ecoam. Eu já deveria saber.sexta-feira, 31 de outubro de 2008
sapos.
Quando ela passou a acreditar que não valia a pena? É uma incógnita. Ela segurou com as unhas as ultimas e espinhentas esperanças até se dar por vencida, como alguns duvidavam. Ela ria, gargalhava e se sentia um tanto quanto vulgar tentando mexer o cabelo de forma atraente naquela direcção. Então, a partir daquele dia, ela não quer mais olhares, nem tentar se firmar sob uma concepção moderna e popular. Ela transbordava vontade, e hoje ela possui um quase deserto entre as pálpebras e as pupilas. Tentaram alguns a olharem mais profundamente, mas, eles olham, não enxergam. E com o rosto impassivo, ela podia ver expressões que dançavam lentamente entre: desejo, obsessão, desejo, gula, desejo, nojo, nojo. Nojo. O nojo vinha dos olhos dela, pois somente enojando-os ela acreditava conseguir repulsa deles. E estava enganada, o ser humano quando não está enlameado pela própria produção agrícola de excrementos fecais, ele acredita estar em um patamar superior ao dos sapos. exactamente quando somos jogados a nossa lama é que nos purificamos. Estes que não se afastavam com o fatal olhar, estes nunca sairiam da concepção anfíbica que ela os classificava. Paradoxalmente difícil de entender, mas, então as lágrimas parecem não cair da mesma forma rápida e instantânea, por que você está na lama. E ela estava na lama. Sua expressão impassiva denunciava toda a angustia e sensatez. Eles não enxergavam, só olhavam. Olhavam-na passar, olhavam o jeito que o jeans frouxo dançava em seus quadris, e olhavam o cigarro dela lentamente passeando da boca para baixo, de baixo para a boca, sem nunca entender o real motivo do desprezo inicial. Explicar ela não conseguia, juntar-se a alguém, tentar ser mais próxima que pele e pele era improvável, estava fora dos seus olhos secos e perdidos, olhando desfocadamente para cima enquanto eles estavam tão perto que um simples movimento tornaria a noite teatral. Nobreza e simpatia deslizavam sobre a sua imagem, tentando conquista-la com um ramalhete ou uma frase bem gravada de um filme clichê americano. Antes, ela até acreditava e tentava procurar ainda que passiva dentro das pupilas, e não via nada mais do que sapos, sapos e sapos. Andou quarteirões inteiros, com uma mão no bolso da camisa, e a outra com um cigarro entre os dedos gordos. Chuviscava, e ela nem notava. Sentou-se em um degrau, e puxou o capuz, mal notando a extrema dificuldade de sentar em algum lugar daquela escada movimentada de semelhantes jovens noturnos. Furtivamente, alguns olhares a atravessaram, alguns a criticavam, alguns a reconheciam, mas, acredito que nenhum chegou a falar sobre ou com ela. Ela exalava um certo teor de dúvida. Ficou a brincar com algumas pedras no chão, entendiou-se, sustentou o queixo com a palma da mão até a tornar vermelha o suficiente, balançou os pés quando eles começaram a incomodar formigando... Entretanto, olhou para cima. Olhou para frente, e enxergou. Enxergou alguém que a enxergava. Ela poderia ter agido infantilmente, ter pulado de alegria, ou exposto em cartazes pela cidade, mas, cautelosamente, ela observou o rosto, e reconheceu cada pedacinho dele, cada curva e as fendas ao lado do sorriso torto. Sustentou o olhar, não o desviaria até resolver para que lado correria, ou aonde acharia protecção para esconder as suas olheiras e conceitos ridículos. Ele caminhou, caminhou, caminhou, e fez um sinal de reconhecimento. Ela não conseguia mover um músculo do corpo, sempre a presença a deixava mais e mais inconsequente, de uma forma que ela nunca fora. O poder que ele possuía, ela mesma colocara nas suas mãos infantis, e este, meus caros, este era infantil, e ela gostava. ( Farei uma pausa para um pequena critica a idiotice feminina que obstantes da incredulidade mundial em sentimentos profundos, a gente ainda faz o favor de intitular os mais inescrupulosos seres para serem nossos únicos a enxergar, ok) . Então, carregada de veneno, levantou-se bruscamente, pode sentir os dedos longos dele apertarem seu braço, e com uma força irreal puxou. O toque propiciou um avalanche de sentidos em um só lugar. Sentiu o cheiro de lavanda do sabonete dele, ouviu a sua voz sempre meio irritante com aquele sotaque sulista, a sua pele quente ainda perdurava a dela fria e áspera, e o vomito chegou a boca em um tempo incrível. Ela andou rápido, e ele não a acompanhou. Ela era eterna com ele, ele era eterno com ele mesmo e mais ninguém. Ela de alguma forma superior a ele, estava na lama, pelo menos a lama era dela. Ele estava a dançar com os sapos, os sapos que ela inveja mais do que tudo, os sapos que ela pagaria para ser, os sapos que ela comeria vivos nos olhos de outros, nos dele, ela os abraçaria. E assim, ela o fez. Mão no bolso da camisa, cigarro na outra mão, cabeça baixa, andar errante, olhar perdido, e sorrindo ela foi andando pela lama, tropeçando e rindo, caindo e levantando, mas, sem desejar mais os sapos de autoria dele, estes ela não veria mais nem que tivesse que engolir outros sapos. Estes? Nunca mais.
domingo, 26 de outubro de 2008
NÃO LEIAM ISSO. OU LEIAM, ENTRETANTO NÃO FAZ PARTE DO PROPÓSITO DO BLOGGER, É SÓ UM PONTO DE LUZ. SÓ UM. ;)
O dia nunca aparece com o sol nascendo poeticamente, ele simplesmente vai clareando a noite traumática como se lava uma coisa muito suja. Assisti ele surgir pela janela quadrada, sentada no banheiro cinza com cheiro de vomito, agora. O vento vem balançar meus pensamentos e conceitos. Você carrega um P de perfeição ao dizer que meus dedos gordos e com unhas roídas são bonitos. Esse pê que eu deveria adorar e finalmente me deixar render. Bem que tento. Olho tudo de cima, me observo com as pernas cruzadas de maneira estranha com o braço apoiado no aparelho sanitário, parece que sempre pertenci aqui, que nunca calçarei sapatinhos de cristal visto que o all star já me dá calo suficiente, e que consigo sobreviver ao ver uma barata, teve até uma vez que salvei um bichinho pra lá de feio de se afogar na água. Nunca foi do meu legado ser a almejada e a que almeja por amor. Por isso, você me surpreendeu engraçadamente, um misto de susto de halloween com alegria. Minhas tentativas ecoavam pelos meus dedos gordos e meu desespero em não conseguir estava já a me irritar, pois você continua a me perpetuar em um pedestal como se a minha falta de senso comum fosse algo digno de admiração. Algumas vezes a coisa mais difícil a se fazer é admitir a sua natureza, quem és e quem ninguém jamais ousará mudar. E você nada contra a correnteza, eu me dou como caso perdido, e você me dá eletrochoques sem cessar nunca, com uma esperança que me assusta, com um amor incondicional, com uma compreensão que me enternece. Recordo do dia em que andando de mãos dadas pelas ruas dessa metrópole, você me perguntou se eu já tinha escrito algo sobre você, tentei de toda forma explicar que somente os que me provocam cicatrizes profundas doloridas tinham esse privilégio, meu lado masoquista falava mais alto em dar tal presente aos cretinos, e que tu não eras uma destes seres despresiveis, me fazes rir e isso já é contraditório demais para escrever sobre. Quando ontem, eu vi que eras diferente até nisto, eu tinha marcas provocadas por você, marcas das minhas unhas curtas que me arranho toda vez que lembro o quão indulgente sou, o quão idiota me torno a não te ter como amor único e profundo, não mereço esse teu poder, não mereço isso. Eu já larguei a bandeira branca a tempos, não sou uma vítima, entretanto nem no jogo estou, e você não me deixa sair, desistir de sonhar, de querer ter algo bom dentro de mim. E eu te agradeço, daqui vendo o sol nascer, admito que o meu conforto está dentro dos seus braços carinhosos, admito que não deveria ser tão dura com meu passado, mas não consigo e me arranho mais. Quero ver até onde irei me arranhando sem você notar. Sem o seu pê de perfeição me fazer parar, por que você luta comigo para me salvar, me obrigando a respirar todo dia para erguer minha cabeça mesmo contra minha vontade, para limpar a sujeira do dia anterior, para me lembrar a sorte que carrego em você me carregar nas costas. Levanto-me do chão, está frio demais, telefone toca. É você.
O dia nunca aparece com o sol nascendo poeticamente, ele simplesmente vai clareando a noite traumática como se lava uma coisa muito suja. Assisti ele surgir pela janela quadrada, sentada no banheiro cinza com cheiro de vomito, agora. O vento vem balançar meus pensamentos e conceitos. Você carrega um P de perfeição ao dizer que meus dedos gordos e com unhas roídas são bonitos. Esse pê que eu deveria adorar e finalmente me deixar render. Bem que tento. Olho tudo de cima, me observo com as pernas cruzadas de maneira estranha com o braço apoiado no aparelho sanitário, parece que sempre pertenci aqui, que nunca calçarei sapatinhos de cristal visto que o all star já me dá calo suficiente, e que consigo sobreviver ao ver uma barata, teve até uma vez que salvei um bichinho pra lá de feio de se afogar na água. Nunca foi do meu legado ser a almejada e a que almeja por amor. Por isso, você me surpreendeu engraçadamente, um misto de susto de halloween com alegria. Minhas tentativas ecoavam pelos meus dedos gordos e meu desespero em não conseguir estava já a me irritar, pois você continua a me perpetuar em um pedestal como se a minha falta de senso comum fosse algo digno de admiração. Algumas vezes a coisa mais difícil a se fazer é admitir a sua natureza, quem és e quem ninguém jamais ousará mudar. E você nada contra a correnteza, eu me dou como caso perdido, e você me dá eletrochoques sem cessar nunca, com uma esperança que me assusta, com um amor incondicional, com uma compreensão que me enternece. Recordo do dia em que andando de mãos dadas pelas ruas dessa metrópole, você me perguntou se eu já tinha escrito algo sobre você, tentei de toda forma explicar que somente os que me provocam cicatrizes profundas doloridas tinham esse privilégio, meu lado masoquista falava mais alto em dar tal presente aos cretinos, e que tu não eras uma destes seres despresiveis, me fazes rir e isso já é contraditório demais para escrever sobre. Quando ontem, eu vi que eras diferente até nisto, eu tinha marcas provocadas por você, marcas das minhas unhas curtas que me arranho toda vez que lembro o quão indulgente sou, o quão idiota me torno a não te ter como amor único e profundo, não mereço esse teu poder, não mereço isso. Eu já larguei a bandeira branca a tempos, não sou uma vítima, entretanto nem no jogo estou, e você não me deixa sair, desistir de sonhar, de querer ter algo bom dentro de mim. E eu te agradeço, daqui vendo o sol nascer, admito que o meu conforto está dentro dos seus braços carinhosos, admito que não deveria ser tão dura com meu passado, mas não consigo e me arranho mais. Quero ver até onde irei me arranhando sem você notar. Sem o seu pê de perfeição me fazer parar, por que você luta comigo para me salvar, me obrigando a respirar todo dia para erguer minha cabeça mesmo contra minha vontade, para limpar a sujeira do dia anterior, para me lembrar a sorte que carrego em você me carregar nas costas. Levanto-me do chão, está frio demais, telefone toca. É você.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
soro
Lágrimas são ações reflexas do nosso sistema imunológico, que ilogicamente expulsa algo de ruim ou objetos estranhos do olho. Essa é a definição mais direta que consegui. Subiu pela traquéia tudo que fazia meu coração bombear, senti arrastar dores e lembranças por que eu não paro de remoer espinhos. Eu deveria cultivar beleza e graciosidade e tal, mas, dissestes um dia que estas definições não importavam que definições não fossem lá importantes, e me deu ânsia de vomito. A temperatura do vomito morna não condiz comigo, meu pulsante coração de gelo é só carne e músculo involuntário, e meus pensamentos estão a vapor quente e incendiário. Tentaste tocar lá na caixa torácica e o ácido que carrego ao redor do órgão cardiológico te queimou, por isso minha ânsia de vomito. Por isso sentei na beirada da ponte, balancei as pernas sem receio para o desfiladeiro, brinquei com arma que não era de brinquedo, por isso o perigo me instiga, me faz ser mais humana. Tudo isso atacando meu cérebro e eu não saí do lado do vaso sanitário do meu banheiro extremamente branco. Acendi um cigarro, saboreei o que ele me trás de misantropia e rebeldia. A beleza de estar vivendo por uns minutos contra a sociedade saudável, meu grito calado contra a ditadura de tudo que amas, contra a necessidade de pressa, sentada e apreciando silenciosamente com um sorriso no canto da boca. Escorreu do meu olho uma gota, pena que ninguém poderá me informar se esta é a famosa lágrima. Dizem os mais velhos que elas lavam a alma, os titãs cantam que tem gosto de soro, os poetas se inspiram com essa água e eu suspiro de tédio. Tédio do destino. Destino que é ridículo. Ridículo é você. E eu amo você, vivo o tédio, vivo você e ajo ridiculamente. Sou você, não consigo te odiar. Deveria, mas, não consigo. Minha boca se abre em um bocejo. Aonde tropecei e perdi os sentimentos? Jurava que os carregava junto ao peito apertando-os contra o peito, e agora estou com as mãos soltas no ar, e na minha memória não faço idéia onde os deixei. Estou passiva, estou maquina, a rir, a trabalhar, a andar, a respirar. Corações quebrados não costumam reagir assim e esse fato só me deixa mais ciente da minha falta cardiológica, do vazio. Talvez não sinta mais, talvez nunca sentisse, talvez ele (meu coração) não exista, não sinta, não bata. Não deveria, não pararia se te tocasse uma só vez, como uma eletricidade pulsante sombreada luz azul. O cigarro acabou, minha existência passa a pesar sob meus ombros pequenos e frágeis, e a existência é uma gorda nojenta. Eu sou fraca, não resisto a existir. Não resisto a você. Prefiro desistir, desisti de existir, desisti de você, desisti de sentir o gosto de soro e lavar a minha alma, desisti de mim.
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